
A IA tem transformado a maneira como geramos interfaces, escrevemos código e, de modo geral, como fazemos quase tudo hoje em dia. Com isso, sinto cada vez mais o mesmo efeito daquela época em que usar Bootstrap era quase obrigatório: se não houvesse um mínimo de cuidado, tudo ficava com a mesma cara. Seria a IA o novo Bootstrap do design?
Respondendo à minha própria pergunta: acredito que sim. Mas precisamos falar sobre essa ideia. O Bootstrap foi uma febre. Ele facilitou demasiadamente a entrega de interfaces com seus componentes prontos e sua enorme capacidade de adaptação aos mais diversos objetivos dos sistemas web da época. Até hoje ele ainda é usado, embora com menos frequência devido ao lançamento do nosso querido Tailwind CSS. E um pequeno detalhe: a versão 6 do Bootstrap já está até em fase alfa. Vida longa ao Bootstrap!
Uma das grandes vantagens do Bootstrap era que, mesmo com pouco conhecimento em HTML e CSS, bastava reutilizar seus componentes prontos para conseguirmos criar interfaces para os mais diversos sistemas. Talvez não fosse da melhor forma ou entregando o primor da UX/UI, mas funcionava. E assim foi feito. O problema é que, quando a maioria aceita os primeiros resultados de uma ferramenta sem personalizar, tudo converge visualmente. Quase sempre que abríamos um site, víamos a famosa fonte Roboto. Os traços escolhidos para o framework também eram escancarados por cards, títulos, containers e espaçamentos. Na pandemia, com o boom de vagas, as pessoas não precisavam ser especialistas para serem contratadas. E que bom! Foi nesse momento que consegui meu primeiro emprego de forma remota no interior de MG. Utilizar ferramentas como essa era a maneira mais fácil de alcançar o objetivo sem tanto esforço ou conhecimento profundo. O resultado? Lá estava quase toda a web com a mesma cara.
A IA é parecida. Ela traz facilidade e permite desenvolvermos soluções de forma rápida, a depender, é claro, do conhecimento do operador. É ele quem decide os padrões, a técnica e o framework, ou, ao menos, deveria. Na atualidade, a tendência é que isso se consolide cada vez mais, deixando o desenvolvedor na posição de arquiteto, de quem define as regras, enquanto a IA faz o trabalho braçal. Ignorar a transformação que a IA está provocando no desenvolvimento é arriscado. Mas adotar a tecnologia de olhos fechados não garante resultados melhores. O diferencial agora estará em saber o que delegar, como avaliar o resultado e quando intervir.
Recentemente, temos visto a IA invadir o ramo do design, porém muitas vezes sendo operada por desenvolvedores como eu. Minto: eu ainda gosto bastante de UI/UX e de estudar sobre o assunto. O problema é quando as ferramentas caem nas mãos de desenvolvedores que vieram do "lado backend da força" e não têm esse tato. Um bom design requer dedicação para aprender como funciona de verdade a Interação Humano-Computador, aquela velha matéria da faculdade. A ideia não é que o usuário não precise pensar, mas sim evitar que ele desperdice esforço tentando entender como executar uma tarefa que deveria ser simples.
Para ficar claro, imagine uma IA criando uma tela de cadastro. À primeira vista, o resultado é excelente, com cards bem alinhados, cores consistentes e botões atraentes. Na prática, o formulário não explica por que uma operação deu erro, apaga os dados digitados e não indica os campos obrigatórios. A IA produziu algo bonito, mas que falha no fluxo diário. Vira apenas algo "para inglês ver". A interface é o que o usuário de fato toca, o que dita a experiência, o que melhora o seu dia e permite que ele seja mais produtivo. Interfaces para sistemas que têm o humano como foco devem ser tratadas como cidadãs de primeira classe: tudo deve ser feito para que sejam simples, funcionais e ponto final.
Nenhum sistema deveria tratar a experiência do usuário como uma preocupação opcional. Existem sistemas pequenos e ferramentas internas que sobrevivem sem um especialista focado em tempo integral, mas isso não anula a necessidade de aplicar boas práticas. Mas a maioria dos gestores de TI, pelo que vejo principalmente no LinkedIn, não pensa assim. Tudo bem tentar reduzir custos, mas não quando se substitui o trabalho humano por algo que nem de longe entrega a mesma qualidade. O custo oculto dessa economia barata não aparece na planilha financeira de imediato; ele aparece na taxa de abandono do sistema, no suporte sobrecarregado e no usuário frustrado. E não leia qualidade apenas como consistência visual. Falo de aplicar anos de estudo e aperfeiçoamento, atributos vitais para essa classe que se mostra tão essencial no meio de toda essa revolução tecnológica.